Exposição O Coletivo

A Galeria Resistência reúne as obras de nove artistas, abrangendo tanto pinturas como esculturas, que exploram temas como o tempo, o movimento, a força, o realismo e a identidade; assuntos que envolvem os trabalhos em diversos contextos. Cada artista aborda a sua arte através da técnica que utiliza e da sua perspetiva, narrativas que divergem, mas que convergem em diferentes momentos, especialmente na forma como retratam a condição humana a partir de um ponto de vista único.

As cenas apresentadas incitam-nos a questionar questões do quotidiano, enquanto o uso dos materiais revela formas e movimentos que atribuem novos significados aos acontecimentos.

Rotação Inversa, Mármore, 35 x 10 x 10

Aleksandar Eftimovski escolhe o mármore para estruturar o seu trabalho, um material duradouro que, nas mãos do artista, parece tornar-se maleável. Contornos precisamente modelados assumem formas abstratas. Cada detalhe de Inverse Rotation é elaborado de forma a que cada parte crie formas e movimentos que resistem ao tempo, moldando o material com o qual trabalha.

A espontaneidade é uma característica marcante do escultor, que, nesta obra, se manifesta na rigidez do mármore; a força da sua escultura reside na leveza que as suas formas assumem como um todo.

Daniela Guerreiro expõe de forma clara e realista a sua perspetiva sobre a condição humana em The White Stripes, onde materializa os seus pensamentos sobre as formas que moldam o corpo, captando todas as subtilezas e detalhes que um ser humano, na sua diversidade, pode revelar.

A artista destaca, com delicadeza, a vulnerabilidade oculta nos corpos naturais e nas suas diversas possibilidades. Temas significativos emergem no trabalho da pintora, como a feminilidade, a experiência, a crítica, a força e a identidade. Acima de tudo, trata-se de uma forma de abraçar as diferenças, em vez de as reforçar.

The White Stripes, Pintura a Óleo, 50 x 50

A Dieta do Homem, Madeira de Bétula, 29 x 29 x 9

Francisco Remiseiro trabalha habitualmente com emoções humanas, esculpindo peças que expressam uma variedade de sensações. Em Man’s Diets, o artista apresenta, de forma estática, uma peça escultórica fragmentada, onde, mesmo na ausência do todo, o significado se torna evidente.

O artista convida à reflexão sobre os nossos hábitos de consumo. Trata-se do ato de pegar numa peça de alimento, mas não num alimento qualquer. A maçã, neste caso, é um fruto com diversas simbologias. Na escultura de Remiseiro, a maçã representa o alimento com o qual o homem satisfaz a sua própria dieta, permitindo interpretações subjetivas sobre este alimento.

Jaime Carvalho cria formas expressivas em cerâmica em Awakening, Torso e Democracy, onde todas as esculturas parecem estar em movimento. Os gestos diferem, tal como as intenções, uma vez que cada peça está posicionada numa direção distinta e pertence a narrativas diferentes.

Em Tension, a expressividade da obra não se concentra apenas no movimento, mas também no olhar, algo que também se verifica em Democracy, permitindo um espaço de diálogo entre a experiência escultórica de ambas as peças.

As três esculturas estão harmoniosamente organizadas no espaço, transmitindo uma perceção de algo não estático, movendo-se de acordo com a subjetividade das suas expressões.

Despertar, Ceramica, 35 x 12 x 10
Tensão, Resina, 164 x 30 x 34
Democracia, Ceramica, 165 x 45 x 50

Roundly Architectured, Técnica Mista, 95 x 30 x 65

A presença de referências arquitetónicas é uma constante nas obras de João Mouro. Em Roundly Architectured, o artista cria relações entre formas e espaço, onde os contornos da obra sugerem uma perceção ampla do espaço interno devido à transparência intencional que permite visualizar o interior da casa.

O espaço expande-se, ampliando também a perceção do espectador, que se depara com um jogo de luzes e cores que penetram na obra. O volume presente no trabalho de Mouro explicita a conexão entre espaço, escultura e luminosidade.

Um dos elementos mais marcantes nas aguarelas de Roberto e Milena Atzori é a leveza das cores e a vivacidade dos gestos e formas que predominam nas suas pinturas. A técnica da aguarela revela as várias possibilidades do ambiente onde as figuras estão inseridas, sendo a presença da natureza uma constante em cada obra.

Cada figura reflete liberdade e integração do ser humano em ambientes rodeados pelo natural, e a relação de harmonia que se estabelece a partir desse encontro. Os artistas exploram emoções humanas que vão dos medos às paixões, resultando no confronto harmonioso de elementos tão distintos em cada criação.

H4 Ragno, H9 Cervo Volante, H20 Medusa & H7 Axololt, Aguarelas s/ papel, 28 x 21

Abismo, Bronze, 40 x 58 x 20

A escultura Abismo de Rogério Timóteo revela a força e a fragilidade do ser humano ao tentar equilibrar-se perante os desafios. A obra sugere uma abordagem ao tempo: o tempo de resistência, mas também o tempo de reconciliação consigo mesmo.

O homem é apresentado numa situação de vulnerabilidade e poder. É como se, ao dominar o material, o artista conseguisse mostrar como o homem domina a sua própria fragilidade.

As obras de Tony Cassanelli transmitem diversas sensações que provocam o espectador através do encontro com o olhar das suas figuras, que revelam e ocultam emoções. Um sentido de mistério está presente em ambas as obras do artista.

Cassanelli esculpe, utilizando diferentes materiais, a identidade destas mulheres de forma única. Independentemente das cores que escolhe usar, a sua linguagem mantém-se consistente. O realismo adotado nas suas obras cria um impacto visual singular, capaz de revelar a intensidade da sua intenção.

Amazon, Mármore de Calcata e Belga, 48 x 35 x 35
Francy, Técnica Mista, 70 x 140

Portrait, Óleo s/ madeira, 20 x 27
No Title, Óleo s/ madeira, 25 x 30
Dancer 2, Óleo s/ tela, 29 x 17
Dancer 1, Óleo s/ tela, 14 x 20

Virginia Brito aborda diferentes temas nas suas obras, que vão desde a intimidade até à conexão. A artista explora o movimento da dança e adiciona cores a imagens a preto e branco, com a figura do dançarino a surgir num cenário colorido e vibrante, conferindo à pintura uma nova vivacidade e presença.

Por outro lado, nas suas pinturas a óleo sobre madeira, Virginia destaca imagens que exaltam a tranquilidade, combinando a representação de animais que reforçam este conceito. A sua escolha de tons suaves enfatiza a predominância da serenidade e do silêncio.

A exposição O Coletivo ocupa o espaço da Galeria Resistência, propondo diferentes reflexões. A importância de combinar perceções e linguagens visuais diversas destaca a necessidade de uma exposição coletiva.

Através da fusão de obras criadas em contextos distintos e da expressividade de cada artista, torna-se possível contemplar a relação que cada um estabelece com o material e as emoções que emergem nas suas criações.

A exposição não só evidencia o potencial individual de cada artista, como também sublinha o potencial coletivo, trazendo para o mesmo espaço possibilidades de diálogo entre as obras e novas questões a explorar.

Textos de Luiza Melo
Crítica de arte